Abaixo o editorial publicado em www.afropress.com no dia 26/10/2007.

 

Resposta do VEDDAS em www.veddas.org.br/cartaaomovimentonegro.htm.

 

 

A fúria vegan e o nosso direito

A representação feita pela Ong ABC sem Racismo ao Ministério Público para que investigue a prática de crime na associação de imagens feita por um grupo de defesa animal, auto-denominado vegan (ou vegano), que associa a imagem da escrava Anastácia - considerada Santa na devoção popular em muitas regiões do país - a cães com focinheira, e a de judeus sacrificados no campo de concentração de Treblinka, sob o nazismo, com a fileira de porcos num açougue, acompanhados da pergunta “Qual a Diferença?” provocou a fúria dos seus adeptos.

Com exceção de algumas poucas vozes sensatas, a maior parte das mensagens – algumas das quais veiculadas neste espaço – são um desfile de insensibilidade, intolerância e de totalitarismo travestido da defesa do direito de uma causa nobre - a defesa dos animais.
Algumas enveredam para o insulto; outros descambam para o perigoso terreno da ameaça, como pode se deduzir de e-mail de uma pessoa que assina Gaby Toledo com o seguinte teor: “Você não conhece a nossa força, nós, defensores, fazemos muito mais barulho que você. Não devia ter mexido com a gente, agora é GUERRA. Retire a ação agora, é um ultimato. Não vou repetir de novo, Gaby”.
O teor da ameaça não é muito diferente de outra recebida há cerca de dois anos por esta Afropress, do estudante Marcelo Valle Silveira Mello, que, à época, se escondia sob o pseudônimo “br0k3d – o justiceiro”, quando do anúncio de ataques a este veículo, seguidos de ameaças, inclusive à integridade física de seus jornalistas. Vejam e comparem: “Olá,Pode ficar calminho que o ataque desse fim de semana só foi o primeiro de muitos. Só vou me contentar quando eu falir essa porra de afropress.com, mexeu com a pessoa errada seu bosta.
Neste caso, cai como uma luva a frase: “qual a diferença?”.
Silveira Mello, finalmente apanhado pelo Ministério Público, está hoje sentado no banco dos réus, processado pela Justiça de Brasília, e pode ser condenado a penas que variam de 2 a 5 anos, com base na mesma Lei 7.716/89, por incitação e apologia ao crime de racismo. A Afropress não faliu, e, como se pode ver, goza de boa saúde.
A lembrança desse episódio é apenas para reiterar que este veículo não se dobra a ameaças, venham de onde vierem, partam de onde partirem.
Nada temos contra vegetarianos ou veganos, nem contra o veganismo, filosofia que prega o respeito aos direitos animais e, em nome disso se abstém do consumo de qualquer produto de origem animal, praticada há milhares de anos por pequenas comunidades de indivíduos e que se tornou mundialmente conhecida, a partir de 1.944, graças à Associação Vegetariana Inglesa. Mais que isso: respeitamos a filosofia das pessoas que, por princípio, acreditam que não deve haver distinção entre animais não dotados de razão e seres humanos, que tem esse atributo.
O que não aceitamos, denunciamos e repelimos é a tentativa deste ou de qualquer outro grupo, de pretender dizer o que deve ou não afetar nossa sensibilidade, como negros; o que é ou não desrespeitoso à nossa história de humilhações e sofrimentos; o que é ou não ofensivo à memória dos nossos antepassados; o que atinge ou não a nossa auto-estima, dos nossos filhos e das futuras gerações.
Mais ainda: denunciamos, rechaçamos e repelimos a postura totalitária de quem desrespeita quem não compartilha dessa filosofia, quem pensa diferente. Ora, seja vegan, ou vegano, o quanto e como quiser - é um direito. Porém, não tente impor a sua filosofia a quem quer que seja. Nisso não abrimos mão e nenhum grupo deve fazê-lo, sob pena, de renunciarmos ao direito de vivermos em um Estado democrático. A mais perigosa tentação de todo o grupo com viés totalitário ou que envereda por esse caminho é esta: calar, silenciar e, por último, suprimir quem pensa diferente; primeiro as idéias, depois até fisicamente, como a história da humanidade fartamente demonstra.
Não deixa, entretanto de ser bastante elucidativo das contradições humanas, que pessoas que se dizem tão sensíveis a ponto de considerarem que não deve haver distinção entre porcos, ratos e seres humanos, não revelem esta mesma sensibilidade quando no trato com semelhantes.
A associação de imagens da crueldade com animais – as quais também nos opomos e combatemos – com os sofrimentos, as humilhações, torturas e mortes praticadas nos dois eventos que envergonham a humanidade – o escravismo e o holocausto contra judeus – é sim, um insulto, como bem diz a voz insuspeita do ativista do Movimento Negro e de Defesa Animal Eufrate Almeida, em entrevista a esta Afropress.
Tem o intuito deliberado de chocar e, nisso, desrespeita a nossa sensibilidade, a nossa história, nossa memória, agride os nossos antepassados, atinge o senso de auto-estima das nossas crianças. Se não fora por isso, tais imagens do mesmo modo, jamais deveriam ter sido utilizadas, por serem de péssimo gosto como estratégia de marketing.
A representação impetrada junto ao Ministério Público de S. Paulo é, portanto, apenas um meio pelo qual, a entidade busca fazer cessar esse abuso contra a população negra, travestido de recurso de publicidade de uma Causa nobre, sem prejuízo das sanções que o seu responsável – o senhor Fábio Paiva – se expôs ao promovê-las.
No mais: respeito é bom e, nós negros, não só gostamos: exigimos!



São Paulo, 26/10/2007

Dojival Vieira
Jornalista Responsável
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