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Rede Burguer King 100% vegetariana?

Release para a imprensa

Rede Burger King 100% vegetariana?

Nutricionista e presidente de grupo de defesa dos direitos animais pede em uma carta dirigida ao empresário Jorge Paulo Lemann, que no início do mês arrematou a rede Burger King, que adote um cardápio 100% vegetariano em toda a rede de lanchonetes. A justificativa para a proposta é pautada na preservação ambiental, na promoção da saúde humana e no respeito pelos direitos animais.

Leia abaixo a íntegra da carta.

São Paulo, 08 de setembro de 2010.

Prezado Sr. Jorge Paulo Lemann,

O senhor não me conhece e, sendo eu responsável por uma singela atividade empresarial, uma pacata atividade em consultório de nutrição e a presidência de uma ONG, estou longe de estar qualificado a oferecer conselhos sobre como o senhor deve conduzir os seus negócios. No entanto, ao tomar conhecimento da recente aquisição da rede Burger King pela 3G Capital me senti compelido a fazer uma proposta que é suficientemente inusitada para estar à altura da ousadia que sempre marcou a sua trajetória de sucesso enquanto empresário.

O momento planetário que vive a nossa sociedade tem criado espaço para iniciativas que seriam impensáveis de obterem sucesso há 10 ou 15 anos atrás. Refiro-me a iniciativas que são pautadas pela mudança de hábitos que visam a sustentabilidade da saúde das pessoas e do planeta, iniciativas que fazem o encontro entre a necessidade desse momento histórico e os anseios da população que já está consciente e disposta a mudar os seus hábitos. Nesse sentido, uma grande rede de fast-food tem todos os elementos e simbolismo necessários para efetivar uma mudança de alcance global capaz de gerar impactos desde os sistemas de produção até o consumo, desde a maneira como as pessoas pensam a sua nutrição até o seu reflexo na saúde individual e coletiva. Os mecanismos de comunicação que precisam ser efetivados para esse tipo de empreendimento são aqueles que falam às massas e a informação disseminada pode ser uma que estimule tanto um hábito quanto o outro, que reforce um hábito já estabelecido ou que proponha uma nova prática, em muitos casos uma prática que, apesar de nova, encontra ressonância imediata entre os consumidores, mas desde que essa nova proposta esteja alinhada com as expectativas que já vinham sendo formadas, ainda que ainda não houvessem sido expressas.

Acredito que podemos concordar que, em âmbito mundial, há um poderoso anseio por mudanças no impacto que a nossa sociedade vem exercendo sobre o clima, ou ainda um anseio por mudanças no estado de saúde da população e, como sempre houve ao longo de toda a história da humanidade, um anseio por uma sociedade mais justa e moralmente desenvolvida. Não tenho dúvidas de que, além do potencial financeiro, o senhor é capaz de enxergar também a responsabilidade e o potencial transformador que essa nova aquisição, ao colocar em suas mãos a direção de 12.150 lojas da rede Burger King em 76 países pelo mundo, tem sobre os efeitos ambientais e sobre saúde coletiva.

É nesse sentido que venho propor que o senhor considere transformar a rede Burger King em uma rede de lanchonetes vegetarianas, o que implica em dizer que não sejam servidos quaisquer produtos de origem animal em todas as lanchonetes da rede. Antes que o senhor decida parar de ler essa carta nesse ponto, quero esclarecer que a justificativa para essa sugestão está em pleno acordo com o que foi anteriormente proposto: a adoção de uma conduta que seja saudável para o meio ambiente e para as pessoas, além de estar alinhada também à evolução moral da sociedade humana global.

Aliás, a própria Organização das Nações Unidas (ONU) já afirmou em mais de uma ocasião em seus relatórios que a adoção de uma alimentação baseada em alimentos de origem vegetal é a estratégia mais poderosa que se pode adotar para reduzir a emissão dos gases de efeito estufa, justificando que a criação de animais para consumo é a atividade econômica que mais causa danos ambientais (responsável por 18% das emissões), perdendo inclusive para o setor de transportes (responsável por 15% das emissões), sendo que em geral esse último é equivocadamente apontado como o grande vilão. Além do seu efeito sobre o aquecimento global, há ainda outras consequências ambientais para a produção de alimentos de origem animal. Estima-se, por exemplo, que para produzir um quilo de hambúrguer são necessários 10.000 (dez mil) litros de água e 16 (dezesseis) quilos de grãos, enquanto que para produzir um quilo de hambúrguer vegetal são necessários apenas 1.400 (um mil e quatrocentos) litros de água e uma quantidade equivalente de grãos, ou seja, apenas um quilo. Para exemplificar melhor a questão da água, um único hambúrguer consome o equivalente ao que uma pessoa gastaria tomando um banho diários de curta duração durante seis semanas. Multiplique isso pelo número de hambúrgueres servidos diariamente nas 12.150 lojas da rede Burger King e tire as suas conclusões sobre o poder de preservação ambiental que reside em suas mãos nesse momento. Note que usar guardanapos feitos com papel reciclado e separar o lixo para reciclagem tem um efeito ínfimo quando comparado ao efeito de retirar do cardápio todos os produtos de origem animal. É oportuno dizer que ninguém melhor do que um empresário brasileiro para implantar uma iniciativa que teria tamanho impacto positivo sobre o meio ambiente, uma vez que é justamente o território brasileiro o que mais sofre com a degradação ambiental causada pela pecuária uma vez que é escandalosa a expansão dessa atividade em terras amazônicas, seja para a criação de gado ou para a produção de soja para ser exportada para servir de ração para a alimentação do gado no exterior.

No que tange à saúde humana, já se tornou conhecimento comum o fato de que uma alimentação baseada em alimentos de origem animal é a causa da maior parte das doenças que afetam a saúde da população mundial, em especial quando o tema são as doenças crônicas e degenerativas (infarto, derrame, hipertensão arterial, diabetes, obesidade e algumas formas de câncer). Por outro lado, uma alimentação baseada em alimentos de origem vegetal não somente se mostra capaz de nutrir às pessoas com segurança e abundância, mas também se mostra eficaz em reverter os efeitos das doenças causadas por uma alimentação baseada em produtos de origem animal. Os alimentos vegetais têm esse poder justamente por serem naturalmente ricos em fibras, pobres em gordura saturada e isentos de colesterol, além de serem muito ricos em cores, aromas e texturas.

Não, não estou propondo que o Burger King se torne uma rede de lanchonetes que serve somente saladas. Longe disso! Quando me refiro a uma alimentação baseada em alimentos de origem vegetal, estou me referindo, entre outras coisas, a hambúrgueres (de lentilha, de soja, de grão-de-bico, de beterraba, etc), a raízes fritas ou assadas (batata, mandioca, inhame, cenoura, etc), a uma variedade de guarnições e sobremesas preparadas sem qualquer ingrediente de origem animal (e portanto sem colesterol) e a uma infinidade de preparações que seria impossível listar aqui e que podem compor com excelência um cardápio padronizado como é o caso do Burger King sem com isso perder no sabor, na nutrição ou na qualidade. Na verdade, o que se verifica ao fazer a mudança para um cardápio baseado em alimentos de origem vegetal (e portanto isentos de colesterol, pobres em gordura saturada e riquíssimos em fibras e outras substâncias protetoras) é um ganho nesses três aspectos: sabor, nutrição e qualidade. É grande a presença de restaurantes vegetarianos pelo mundo, com estilos gastronômicos variados que compõem a versatilidade necessária para atender à realidade de qualquer público ou região do planeta. Apesar de os restaurantes vegetarianos estarem presentes aos milhares por todo o globo, não há uma iniciativa global em rede, talvez justamente por faltar um investidor com a audácia necessária para fazê-lo. Daí, volto a insistir, não há alguém melhor do que o senhor para efetivar uma mudança histórica e corajosa como seria a transformação de uma rede de fast-food em uma rede vegetariana.

Já no que diz respeito à evolução moral da sociedade, é crescente a conscientização sobre a ética na alimentação e em outras formas de nos relacionarmos com os animais com quem dividimos esse planeta. No cerne dessa evolução moral está o entendimento de que os animais são seres sencientes, dotados da capacidade se sentir dor, prazer, medo e alegria, seres que prezam por sua vida e desejam vivê-la de maneira livre, plena e extensa. Esse entendimento já vem há alguns deixando o círculo daqueles que lutam pelos direitos animais e tem cada vez integrado a percepção de pessoas comuns, até mesmo daquelas que, talvez justamente por lhes faltar opções ou a comodidade nos serviços de alimentação, ainda mantêm o hábito de consumir partes de animais. A facilidade de uma rede de fast-food 100% vegetariana viria a atender a necessidade dessa parcela crescente da população e certamente serviria como estímulo para que muitos outros fizessem a escolha por se alimentar não apenas com saúde e sustentabilidade ambiental, mas também com compaixão. Mais uma vez, nesse momento, o destino de milhões de animais está em suas mãos.

Diante da demanda mundial por produtos e serviços que atendam aos anseios de uma crescente parcela da população que se torna cada vez mais consciente sobre os impactos dos seus hábitos de consumo sobre o planeta e sobre a sua saúde, iniciativas em escala global que coloquem o ato de se alimentar em alinhamento com esses aspectos virão sem demora. Se não for agora, não tardará a surgir dentro de poucos anos uma iniciativa como essa. Caso a minha proposta soe demasiado audaciosa para o negócio em questão, devo dizer que, particularmente, não vejo como sendo do seu feitio ficar aguardando até que outro empresário mais audacioso o preceda em iniciativas para as quais o momento apropriado já desponta no horizonte.

Coloco-me à disposição para colaborar com mais informações ou da maneira que julgar mais apropriado no sentido de transformar a rede Burger King na primeira rede de lanchonetes vegetarianas do planeta, iniciativa essa que prontamente destacará a sua empresa da concorrência ao se mostrar alinhada com a crescente demanda por preservação ambiental e por alimentos que, além de saborosos, sejam também fatores para a promoção da saúde e bem-estar de todas as espécies.

Atenciosamente,

George Guimarães
Nutricionista especializado em dietas vegetarianas
Presidente da ONG VEDDAS
e-mail: nutriveg@terra.com.br
Telefone: (11) 5585-3475

© 2014 VEDDAS – Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais e Sociedade

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